Em abril de 2017, o então Diretor Técnico da ABPA, Mateus Nagime participou da 22ª Conferência da SEAPAVAA, intitulada "Arquivos Além de Fronteiras", em Bangecoque, Tailândia. Seapavaa é a sigla em inglês para Associação de Arquivos Audiovisuais do Sudeste Asiático e Pacífico. Nagime, representando a ABPA, integrou o Painel "Volunteers, Advocates, and Friends: Collective Action for Archives" ("Voluntários, defensores e amigos: ações coletivas em prol dos arquivos"), com a fala "Archiving and Spreading Brazilian audiovisual heritage" ("Preservação e Difusão do Patrimônio Audiovisual Brasileiro").

Nela, fez um breve relato sobre a situação da preservação audiovisual do Brasil, com ênfase na ABPA, em suas conquistas e desafios para o futuro. Apesar do enfoque nas questões que afetam diretamente o Sudeste Asiático e Pacífico, muitos europeus e norte-americanos participam regularmentes dos encontros; o diretor da ABPA foi primeiro sul-americano a apresentar uma fala e era o único presente em 2018. Este ano, a 23ª Conferência acontecerá entre 25 e 30 de junho na Nova Caledônia. É um compromisso recente da Associação em levar trienalmente sua Conferência ao Pacífico região com menor presença e maiores necessidades, e que sediou a primeira conferência apenas em 2016, no arquipélago de Guam, território não-incorporado dos EUA.

Durante a conferência, Mateus ficou não só impressionado com o alto nível das apresentações, mas também com a força política da SEAPAVAA, unindo não só representantes de vários arquivos da região, mas também muitos representantes europeus e norte-americanos – Mateus era o único latino-americano presente. Houve, inclusive, um intenso debate sobre a inclusão da Índia no conceito de "Sudeste Asiático e Pacífico" – o que acabou não acontecendo –, visto que apenas Arquivos Audiovisuais da região podem ser membros plenos - arquivos audiovisuais, organizações e de fora, além de pessoas físicas, podem ser membros associados.

Tomando a Seapavaa como um farol a ser seguido tanto para o futuro da preservação audiovisual não só no Brasil, mas em toda América Latina e Caribe, a ABPA enviou quatro perguntas para a Presidente da Associação, Irene Lim, a qual nos respondeu prontamente.

Além de nos informar que grande parte da primeira resposta foi fornecida pelo Presidente Fundador da SEAPAVAA, Dr. Ray Edmondson (Austrália), pois ele seria mais apropriado para nos apresentar o contexto sob o qual a SEAPAVAA foi criada, ela também fez questão de afirmar que as respostas não foram respondidas por ela, enquanto Presidente, e sim por todo o Conselho Executivo da Associação,que cumpre mandado de 2017 a 2020 e é composto por:

Irene Lim (Presidente, National Archives of Singapore, Singapura),

Christophe Augias (Vice-Presidente, Biblioteca Bernheim, Nova Caledônia),

Ricky Orellana (Secretário-Geral, Mowelfund Film Institute, Filipinas),

Joshua Harris (Tesoureiro, Department of Preservation Services University Libraries University of Illinois at Urbana-Champaign, EUA),

Benedict Salazar Olgado (University of the Philippines School of Library and Information Studies, Filipinas),

Pawarisa Nipawattanapong (Museum and Archive The Government Public Relations Department of Thailand, Tailândia),

Prof. Ray Jiing (Tainan National University of the Arts, Taiwan),

Sanchai Chotirosseranee (Film Archive (Public Organization), Tailândia),

Mick Newnham (Presidente Anterior, National Film and Sound Archive, Austrália).

 

Irene Lim 009 copy PP 233x300Reprodução site da SEAPAVAA

Nós agradecemos a todos eles pelas respostas abaixo e desejamos não só uma bem-sucedida Conferência em Junho, mas também o prosseguimento da cooperação entre ABPA e SEAPAVAA nos próximos anos.

 

ABPA: Como vocês conseguem manter uma forte presença internacional e permanecer focados em problemas e soluções que dizem respeito à sua região?

SEAPAVAA foi concebida como uma organização internacional, mas com um foco firme nas questões e necessidades que importam para os arquivos e arquivistas audiovisuais na região do Sudeste Asiático e Pacífico. Isso reflete-se na estrutura dos membros: membros plenos devem ser Arquivos Audiovisuais da região, mas membros associados podem estar em qualquer lugar do mundo.

Antes de estabelecer a SEAPAVAA, os membros fundadores consideraram as alternativas - por exemplo, ser um subgrupo de uma das federações já existentes (como IASA, AMIA, FIAF, FIAT etc) - e decidiram contra. Sentiu-se, à época, que uma nova associação era necessária porque (a) nenhuma das federações existentes cobria todo o espectro audiovisual; (b) as federações existentes tinham uma predominância de membros europeus e norte-americanos com foco nessas regiões, e as preocupações de nossa parte do mundo nunca seriam prioridades para elas; (c.) precisávamos de uma organização que poderia aceitar tanto pessoas jurídicas (com interesse comercial ou não-comercial) quanto pessoas físicas como membros, e que isso funcionasse de maneira viável; nenhuma das federações existentes ia de encontro a essas necessidades; (d) nossa região e seu patrimônio audiovisual era praticamente invisível dentro do movimento internacional da arquivística audiovisual e precisávamos deixá-lo visível; (e) SEAPAVAA poderia estabelecer uma relação direta com a UNESCO; e (f) muitos arquivos eram pequenos e empobrecidos e precisavam de uma rede que pudesse oferecer um apoio moral.

Havia também considerações práticas. Grupos políticos e econômicos na região (tais como Associação de Nações do Sudeste Asiático - ASEAN em inglês) oferecia estruturas pelas quais a SEAPAVAA poderia se identificar. Ninguém tinha muito dinheiro, então as taxas de adesão deveriam ser baixas e as conferências relativamente baratas tanto para organizar, quanto para viajar: as viagens deveriam ser dentro da região e não para mais longe. Organizações como ASEAN-COCI (Comitê para a Cultura e Informação) e UNESCO nos ajudaram financeiramente, mas também com outros meios de assistência.

 

SEAPAVAA tem atualmente uma presença internacional porque permaneceu vinculada à sua visão original em tornar o patrimônio audiovisual da região visível, e porque suas conferências são eventos de alta qualidade que garantem a presença de colegas do mundo todo. Preservação audiovisual é uma profissão jovem e pequena quando analisamos tudo por uma perspectiva ampliada e portanto a profissão pode se "perder" nesse quadro geral. Torna-se então imperativo que a SEAPAVAA tenha uma presença internacional e trabalhe com os maiores órgãos globais para que possamos melhor servir a nossos membros. Essa conexão global nos permite ficarmos atentos à tendências e oportunidades que estejam acontecendo e assim podemos trocar informações e nos aproveitar dessas oportunidades assim que elas surgem.

Por último, mas não menos importante, SEAPAVAA também tem uma qualidade especial: o calor e a receptividade das relações pessoais dentro da comunidade. De uma certa perspectiva, poderia ser descrito não como uma associação, mas talvez mais uma espécie de família. Enquanto nós vamos em direção ao mundial, nós permanecemos focados e somos inerentemente locais.

ABPA: Por favor, nos conte um pouco sobre quais são os principais desafios encontrados pela SEAPAVAA atualmente e quais são as principais atividades patrocinadas pela associação.

 

Os maiores desafios são:

Aporte financeiro para manter a organização funcionando. Ainda que as taxas de inscrição e anuidade da SEAPAVAA são muito baixas, sempre existem dificuldades em receber os pagamentos. Também é difícil conseguir patrocínio para os principais eventos que a SEAPAVAA gostaria de oferecer, tais como grandes workshops de treinamento, porque a preservação é uma profissão ainda pequena e não conseguiu de forma bem-sucedida posicionar-se como um importante agente cultural, do modo como bibliotecas, galerias e museus já são reconhecidos. Portanto, é complicado apresentar eventuais lucros financeiros para conseguir apoios de empresas privadas, com fins comerciais.

Manter um equilíbrio na associação. SEAPAVAA foi criada para apoiar arquivos audiovisuais. Apesar disso, existem comparativamente poucos desses pela região. Ao mesmo tempo, existem muitas pessoas e empresas que estão por aí interessadas no trabalho da SEAPAVAA e que desejam ser membros e participar da SEAPAVAA. O número de arquivos audiovisuais não está aumentando na mesma velocidade que o número dessas outras pessoas e organizações que são membros em potencial. O dilema é a quem SEAPAVAA pode melhor designar para levar a cabo o papel crucial de advogar pela preservação audiovisual e consequentemente trazer benefícios para os membros centrais (ex: arquivos audiovisuais).

A maior parte das instituições arquivísticas são burocráticas e tem orçamento limitados. Alguns deles encontram desafios financeiros. SEAPAVAA precisa apoiar essas instituições em suas tarefas arquivísticas. O que SEAPAVAA tem feito é organizar workshops de treinamento e conferências em nossos países membros. Estas promovem oportunidades para as instituições que hospedam em conscientizar sobre a importância em preservar arquivos audiovisuais em seus respectivos países.

Todos arquivos estão lidando com os desafios de digitalização e orçamentos apertados. Esses são desafios perpétuos.

ABPA: O quão importante são as conferências para vocês e como os membros mantêm contato entre elas?

As conferências anuais são a parte mais importante da SEAPAVAA. Elas permitem a associação para conectar-se de forma plena e presencial com todos nossos membros,e são cruciais para nossos membros estabelecerem redes de contato com organismos globais e desenvolver consciência e desenvolvimento profissional. Por outro lado, nós levamos em consideração que as conferências são caras para alguns membros participarem, especialmente pelo fato que a SEAPAVAA cobre uma grande variedade de economias nacionais, de países muito ricos à economias mais pobres. Neste ponto, o apoio financeiro de organizações como REI Foundation Limited é importante para a SEPAVAA, já que permite a certos membros com limitações para participar das conferências anuais.

Existiram melhorias significantes nas comunicações desde a criação da SEAPAVAA, mas mesmo e-mail não pode ser tido como algo garantido e óbvio. Ainda que acesso a e-mail possa existir em todos os países-membros, membros podem não ter acesso irrestrito devido a restrições financeiras ou estrutura interna das organizações – por exemplo, se as respostas ou comunicações oficiais tiverem que passar por diversas camadas de burocracia para aprovação. Existe também limitação na velocidade de internet, o que faz com que muitos membros tenham problemas em aproveitar por completo plataformas ou outras tecnologias online. Infelizmente, os membros com maiores problemas em acesso à internet são aqueles que mais necessitam do apoio da SEAPAVAA.

ABPA: Vocês tem alguns planos para presença em redes sociais e como esse mundo digital e social afeta o dia-a-dia da associação?

 

Redes sociais são tanto uma dádiva quanto um problema. Se por um lado temos muitas plataformas para trabalharmos, existem gastos significativos em "fazer bem". Mesmo manter atualizações constantes no facebook ou instagram toma mais recursos que a SEAPAVAA pode reunir facilmente. Outros comentários a respeito do engajamento em redes sociais versus os desafios encontrados por alguns dos nossos membros já respondemos na pergunta anterior.

Não obstante esses desafios, o Conselho Executivo vai investigar como aproveitar redes sociais para beneficiar SEAPAVAA e nossos membros de forma positiva, seguindo em frente.


Login


© Associação Brasileira de Preservação Audiovisual - Direitos reservados